Monday, February 12, 2007

Lucrécia Martel

Caros leitores,
Na última quinta-feira, tivemos a ilustre visita de nada mais nada menos que:
Lucrécia Martel!
Sim, uma das grandes diretoras do cinema argentino contemporâneo e porque não dizer, do mundial!
Eu não pude ir na palestra da mesma, mas foi pensado nisso que resolvi publicar um "ensaio" que fiz sobre o cinema dessa grande diretora. Espero que todos vocês gostem, e que ainda não conhece o trabalho dela, vá atrás, porque vale muito a pena!
Boa leitura:

"Falar de um cinema tão particular quanto o da cineasta argentina, Lucrécia Martel, é uma tarefa muito complicada. Optei em poder divagar sobre a arte cinematográfica da cineasta, por encontrar elementos únicos em seus filmes. Lucrécia faz parte da geração neo-realista do atual cinema argentino, geração está que tem ovacionado o mundo afora através dos festivais internacionais. Essa geração surgiu após o estouro que foi o filme, A História Oficial (1985) de Luis Puenzo, consagrado com o Oscar de melhor filme estrangeiro e a Palma de Ouro de melhor atriz para Norma Alejandro (O Filho da Noiva). Devido a esse sucesso muitos cineastas recém formados nas universidades de cinema de Buenos Aires e na escola de documentário de Santa Fé, passaram a realizar filmes autorais e com uma preocupação muito importante: retratar o cotidiano do próprio país.
Apesar de possuir nomes fortes como o de Fernando Solanas (La Hora de Los Hornos, 1968 & Memórias do Saque, 2004), Fernando Birri (Tire Dié, 1960 & ZA 05, 2006) e do fotógrafo Ricardo Aronovich (Os Fuzis, 1964 & São Paulo S/A, 1965), uma crise financeira se instalou no país fazendo muitos realizadores pensar que o cinema argentino estava com seus dias contados. A resposta para a crise veio logo em seguida com os mega sucessos, Nove Rainhas (2000) de Fabián Belinsky (El Aura, 2005), Plata Quemada (2000) de Marcelo Pineyro (O Que Você Faria?, 2005) e O Filho da Noiva (2001) de Juan José Campanella (Clube da Lua, 2004).
Obtendo resultados impressionantes com premiações, indicações e etc, o cinema argentino ocupou um lugar dentro do cenário mundial nunca antes visto. Pegando carona com esse grupo de realizadores vieram: Pablo Trapero (O Outro Lado da Lei, 2002 & Família Rodante, 2004), Pablo José Meza (Buenos Aires a 100 Km), Paula Hernández (Herencia, 2001) e Lucrécia Martel (O Pântano, 2001 & A Menina Santa, 2004).
Lucrécia Martel mostra em seu cinema peculiaridades e uma sensibilidade única. Analisando seu primeiro filme, O Pântano, Lucrécia trabalha a questão familiar com certa voracidade, o filme narra a história de duas mulheres que são primas, Mecha (Graciela Borges) e Tali (Mercedes Morán) e após um pequeno acidente com Mecha, Tali tenta ajudar a levantar o ânimo da prima, freqüentando sua casa e tentando ser companheira da mesma. Algumas particularidades são interessantes, as duas têm quatro filhos, Mecha tem um marido fracassado que tinge os cabelos, já Tali tem um marido presente que procura proteger a família de forma constante. A família de Mecha vive em uma chácara e passa boa parte do tempo envolvida pela piscina que possuem, já a família de Tali mora em La Ciénaga (nome original do filme) em uma casa sem piscina. Podemos ver como Lucrecia destoa a família, algo muito presente na obra de Ettore Scolla (A Família, 1987) e Mario Monicelli (Parente é Serpente, 1992), demonstra a decadência familiar através dessas duas mulheres, mulheres marcadas pelo sonho não realizado (é incrível como a cineasta coloca Mecha como uma mulher destruída pelas freqüentes traições que o marido aplicou, ela bebe compulsivamente, tem um ar de madame indesejada, já Tali é a típica mulher criada para ser uma boa mãe e uma boa esposa).
Apesar de se tratar de uma ficção, Lucrecia traz elementos de não-ficção ao retratar o povo da cidade de El Ciénaga tendo visões da Virgem, nesse momento acabei refletindo na temática de seu segundo filme, A Menina Santa, onde a cineasta traz uma garota (Amália) que sente como vocação religiosa o fato de ser um objeto de desejo para um médico que está na cidade para um congresso. Nesse ponto Lucrecia vai além ao retratar a desilusão religiosa, lembrando muito os ideais retratados pelo espanhol Luis Buñuel em seus filmes. Sua fúria figura toda a tela com um olhar santo desarmando a podridão de um homem desiludido. Vale ressaltar que a desilusão é muito presente na obra da cineasta, quase uma tragédia grega.
Uma coisa que chama a atenção na obra da cineasta é a relação entre a meninas nos dois filmes, fica claro a admiração que existe entre as personagens femininas, umas pelas outras. A sutileza como a cineasta apresenta esses elementos me fez lembrar o cinema do francês Patrice Leconte (A Garota na Ponte, 1999 & Confidências Muito Íntimas, 2004), onde existe uma paixão que não necessita ser revelada. O tom que se estende pelo ar entre as personagens deixa tudo isso implícito que existe algo além.
Dentro de todo esse conceito, Lucrecia ataca o homem nos dois filmes, ela demonstra a fragilidade masculina. Nos dois filmes os homens são seres frágeis que não conseguem enfrentar as mulheres, em nenhum ponto existe uma discussão, mas mostra que esses mesmos homens são o fruto da infelicidade dessas mulheres. Isso me deixou muito curioso em como a cineasta manipula tudo isso, os homens de seus filmes são inexpressivos, seus olhares são sempre voltados para o chão, suas formas de andar são carregadas de culpa, a voz é leve e frágil.
Deixei para o final dois elementos que acho essenciais para compreensão do cinema de Lucrecia Martel: a água e o som.
Lucrecia tem uma relação coma água muito presente em seus dois filmes, principalmente com piscinas, seus filmes costumam passar no alto verão argentino. Em O Pântano, as duas famílias se inter-relacionam em volta piscina, que de tão suja lembra as águas de um pântano. As discussões entre os personagens e a superação de suas dores estão totalmente envolvidas pelas águas da piscina. Quando Mecha se acidenta com as taças de vinho, esse acidente ocorre na beira da piscina, e quando a família recebe a notícia da morte de Luciano, filho mais novo de Tali, as duas irmãs filhas de Mecha se reúnem em volta da piscina para dividir suas dores no desfecho do filme. Quando penso nessa cena, logo me vem a cabeça à cena final de Menina Santa, onde antes de termos a revelação do abuso do médico com a garota, a cineasta nos presenteia com uma cena lírica entre as duas amigas que trocam confidências ao longo do filme, elas apenas nadam e se divertem.
Lucrecia trabalha tudo isso através do som, ou a ausência do mesmo, lembrando o cinema de Peter Greenaway (O Cozinheiro, o Ladrão, sua Mulher e o Amante, 1989) e Michelangelo Antonioni (A Noite, 1961), trazendo o silêncio absoluto, apenas fica perceptível para um espectador mais atento a respiração dos personagens, a ausência de trilha sonora (a música só é presente no filme quando se tem uma festa ou alguém liga um rádio, música diegética, assim como fez a trupe do Dogma 95’), o som absoluto dos filmes faz com que os mesmos no passem uma sensação de violência explícita, uma violência psicológica, por que em volta de toda essa lama, temos a decadência de duas famílias (no caso de O Pântano) e o desespero na ausência de um certo afeto comunicativo entre duas pessoas (no caso de A Menina Santa).
Lucrecia nos cala com o pouco que expõem através desses dois filmes, fazendo os espectadores saiam da sala de cinema pensativo com o a experiência que acaba de ter".

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